segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Hoje o meu amor partiu, o céu tá mais azul.

Um par de olhos azuis, brilhantes e penetrantes como jamais vi por aí. Eram os olhos da minha Bia, lindos de morrer. Ok, eu a encontrei, mas foi ela que me adotou. Menina pequena, sujinha, pêlo duro, e que deveria ser branco, mas tinha um monte de manchas nas costas. E uma calda que não lhe pertencia. No começo dormia na gaveta do criado mudo e só parava de miar se eu tivesse olhando pra ela. E direto nos olhos. Então a gente conversava. Depois passou pra cama, já tinha se transformado na “Lady Bia”. Em forma de gente, sua personagem seria aquele tipo de menina lindíssima, mas metidinha e fresca, sabe? Nem todo mundo conseguiria compreendê-la, mas aquele que ela escolhesse, teria como destino amá-la profundamente, sem escapes. Vivemos mais de 11 anos juntas. Mudamos de casa, de quarto, de ração, de potinho, ganhamos novos amigos. E nós mesmas mudamos: eu, por exemplo, fiquei mais ocupada e sem ânimo pra brincar todas as noites; ela, mais velhinha e com menos energia pra pular como louca. Ao longo desse período, tive meus momentos de tristeza. E aí eu chorava. Sem precisar que eu pedisse, ela subia em meu colo, olhava pra mim com aqueles olhos atenciosos, estendia sua patinha, forrada com almofadinhas rosa, até meu rosto. Mas fazia tão delicadamente que até me emocionava, mas me confortava, pois parecia um abraço. Vazio meu coração não fica, pois tá cheio de lembranças lindas da minha eterna princesinha. O que tá me machucando é o fato de ter que jogar fora a esperança de compartilhar com ela dias de sol num jardim qualquer, talvez perto do mar, com potes de água pra derrubar, árvores pra subir, insetos pra perseguir... Eu planejava isso, só não sei se ela entendeu naquela noite em que me despedi, antes de viajar. Uma das coisas que mais gostávamos, era domingo de sol e um pote d’água pra ela bater e tentar pegar a corrente que se formava. E uma varinha pra brincar até ficar com a língua de fora. E embora ela tenha escolhido segunda pra partir, domingo é dia de ficar junto, agora dia de saudade. E meus domingos serão sempre lindos, de sol brilhante, e de céu muito mais azul, como seus olhos. Hoje o meu amorzinho partiu. Vou cultivar em frente de casa “O jardim de Bia”. E toda vez que eu sentir saudades e aquela vontade imensa de te abraçar e te encher de beijos, vou admirar as flores.